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sábado, 31 de julho de 2010

- Você tem um cigarro?
- Estou tentando parar de fumar.
- Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
- Você tem uma coisa nas mãe agora.
- Eu?
- Eu.



(Caio Fernando Abreu)

sábado, 24 de julho de 2010

Para uma avenca partindo.

Você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente.

(Caio Fernando Abreu)

Extremos da Paixão

"... Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira: compreendo, sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe, berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. O que ou quem cruzo esses dois portos gelados da solidão é vera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o eterno do perecível, loucos".



(Caio Fernando Abreu)

sábado, 17 de julho de 2010

Tente, tente..

Você já pensou em tentar por mais uma vez achar outro alguém que lhe queira também?
Não é todo rio que tem um mar pra se encontrar, dá pra evaporar, e encontrá-lo através do ar.


(Fresno - Evaporar)

E agora? Melhor eu acordar desse sonho...

É. Melhor acreditar que são apenas os astros conspirando. No entanto, às vezes me pego pensando que talvez eu esteja conspirando para agir conforme essas estrelas definem. Está nublado e nunca quis tanto tentar ver o que há atrás dessas nuvens. Quem sabe, dormindo, eu possa te encontrar onde o ar é rarefeito. E pode ser aqui mesmo, em terra firme, pois tua presença, por si só, toma todo o meu ar.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A felicidade da cura. Passou.

Passou. Gente, passou. Aliás, faz algum tempo que já passou.
E eu que pensava que ia viver eternamente com aquela dor, que me matava aos poucos.
Mas não. Acabou. Agora, sinto um grande alívio em meu peito. Ah, você não sabe o quanto é bom!
Poder sorrir, não ter mais motivos pra chorar, poder amar novamente (sem ter medo algum)...
É, estou melhor.
Sabe qual é (foi) o segredo? Amar a si mesmo, antes de tudo.
Pois é, eu me amo, muito mesmo, a ponto de não deixar que alguém maltrate meu coração novamente,
brinque com meus sentimentos, ou não me dê valor.
E agora estou feliz, conhecendo pessoas agradáveis, que me transmitem amor e felicidade,
bem diferente do que eu sentia há tempos atrás...
Enfim, p-a-s-s-o-u!

Cuide bem do que te faz bem!

Sabe do que eu gostaria?
Gostaria de pessoas, que dissessem 'eu te amo' com mais frequência, a mim.
Pessoas que chegassem pra mim, perguntando, 'tá tudo bem com você?'.
Pessoas que, quando passam algum tempo sem lhe ver, não esquecem de você
e logo mandam algum recado, dizendo 'cadê você? estou com saudades!',
ou vão atrás de você, pra dar um abraço, pra matar a saudade.
Amigos que lhe aconselhassem, sempre que você precisasse,
que estivessem sempre dispostos a te ouvir, dando-lhe seu ombro,
pra que você possa se sentir seguro e derramar seu pranto.
Pessoas assim estão em falta, hoje em dia. Por isso, se você tem um amigo, ou uma amiga,
que te dá esse carinho, esse colo, essa segurança, cuide bem dele, porque não é todo dia
que encontramos pessoas assim.

sábado, 3 de julho de 2010

-

Penso sempre que um dia a gente vai se encontrar de novo, e que então tudo vai ser mais claro, que não vai mais haver medo nem coisas falsas. Há uma porção de coisas minhas que você não sabe, e que precisaria saber para compreender todas as vezes que fugi de você e voltei e tornei a fugir. São coisas difíceis de serem contadas, mais difíceis talvez de serem compreendidas - se um dia a gente se encontrar de novo, em amor, eu direi delas, caso contrário não será preciso.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Remar. Re-amar. Amar.

Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou. Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando em torno de mim mesma. Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também! Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade! Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica. Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também. Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir. Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo. Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças! Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena. Remar. Re-amar. Amar.


(Caio Fernando Abreu)

Isso é muita sabedoria.

Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho...o de mais nada fazer.


(Clarice Lispector)

Frágil.

Frágil – você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar.



(Caio Fernando Abreu)